Bloqueado por Acusação Falsa? O Tribunal da Internet e a Falta de Defesa nos Aplicativos

Motoristas de aplicativo, que dependem da plataforma para seu sustento, vivem sob a constante ameaça de um bloqueio sumário. Uma das situações mais injustas é a desativação baseada em acusações falsas de passageiros, sem qualquer chance de defesa. A plataforma se transforma em um tribunal de exceção, onde o motorista é julgado e condenado sem direito a um processo justo.
Este artigo informativo aborda essa prática abusiva e explica os direitos do motorista que se torna vítima desse sistema.

O “Justo Motivo” Baseado em Acusações Falsas

As plataformas costumam alegar que a desativação ocorre por “justo motivo”, geralmente amparado em relatos de usuários sobre supostas condutas graves, como assédio, furto ou comportamento inadequado. O problema é que, muitas vezes, essas acusações são infundadas, motivadas por má-fé ou mal-entendidos, e a plataforma as aceita como verdade absoluta, sem qualquer investigação.
É estarrecedor que uma empresa baseie uma decisão tão drástica, que destrói a fonte de renda de uma pessoa, em um simples relato unilateral, sem exigir um mínimo de provas, como um boletim de ocorrência. A plataforma ignora todo o histórico positivo do motorista – boas avaliações, elogios, anos de serviço – e dá mais valor a uma acusação isolada e inverossímil.

A Violação do Direito de Defesa

A Constituição Federal garante a todos o direito ao contraditório e à ampla defesa (art. 5º, LV). Embora essa garantia seja tradicionalmente associada a processos judiciais e administrativos, os tribunais têm entendido que ela também se aplica às relações privadas, especialmente quando há um grande desequilíbrio de poder, como na relação entre um motorista e uma gigante de tecnologia.
Um procedimento justo de defesa exigiria, no mínimo: (1) Notificação Prévia e Detalhada sobre a acusação específica; (2) Prazo para Defesa para apresentar sua versão dos fatos; (3) Análise Isenta que considere ambos os lados.
Na prática, o que ocorre é um bloqueio sumário, seguido de respostas automáticas e genéricas do suporte, o que configura uma violação flagrante da boa-fé objetiva e um abuso de direito (art. 187 do Código Civil).

A Inversão do Ônus da Prova

Na Justiça, é comum que se aplique a inversão do ônus da prova. Isso significa que não é o motorista que tem que provar que é inocente (o que seria uma prova diabólica), mas sim a plataforma que tem que provar que a acusação era verdadeira e que o bloqueio foi justificado.
A plataforma detém todas as informações: registros de viagem, comunicações, dados de geolocalização. Portanto, é dela a responsabilidade de apresentar em juízo as provas que sustentam sua decisão.

Quais São os Direitos do Motorista?

O motorista bloqueado injustamente pode buscar na Justiça: Reativação Imediata da Conta (tutela de urgência); Obrigação de Fazer Definitiva; Indenização por Danos Morais; e Indenização por Dano Existencial.
Se você foi vítima de um bloqueio baseado em acusações falsas, não aceite a decisão como final. O poder das plataformas não é absoluto e a Justiça pode ser acionada para corrigir essa arbitrariedade.
Este artigo possui caráter exclusivamente informativo, não constituindo consultoria jurídica ou promessa de resultados, em conformidade com o Código de Ética e Disciplina da OAB.
Felipe Medeiros – Advocacia www.felipemedeiros.adv.br